Ama BL tailandês? As raízes dele estão no mangá japonês para meninas dos anos 70

50 anos de história do yaoi, do BL e das mulheres que construíram um gênero.

Toda vez que uma série tailandesa vira tendência mundial ou um novo mangá BL lidera as vendas da sua livraria, você está vendo o capítulo mais recente de uma história que começou há meio século, nas páginas do mangá shōjo (para meninas) japonês.

Anos 70: as pioneiras

No início dos anos 70, um grupo de jovens mangakás — conhecidas como o Grupo do ano 24 (Nijūyo-nen gumi, pelo ano de nascimento delas, Shōwa 24 / 1949) — começou a publicar mangás shōjo sobre laços emocionais e românticos intensos entre garotos bonitos: obras como O Coração de Thomas, de Moto Hagio, e Kaze to Ki no Uta, de Keiko Takemiya. Não era erotismo: eram explorações literárias, muitas vezes trágicas, do amor — escritas por mulheres, para leitoras, numa época em que histórias centradas no desejo feminino enfrentavam fortes restrições sociais. Depois, revistas especializadas (a mais famosa, a June, lançada em 1978) deram ao estilo um lar comercial.

Anos 80 e 90: o “yaoi” e a explosão dōjinshi

Na cena de autopublicação amadora (dōjinshi), as fãs começaram a criar obras de paródia shipando personagens masculinos de séries populares. Foi essa cena que cunhou a palavra yaoi — sigla autoirônica de yama nashi, ochi nashi, imi nashi (“sem clímax, sem desfecho, sem sentido”), uma piada sobre quadrinhos de fã sem enredo. Ao longo dos anos 90, a indústria comercial se profissionalizou em torno do termo de marketing Boys’ Love (BL), usado no Japão até hoje. Resumindo: shōnen-ai é o termo vintage dos anos 70, yaoi carrega conotação de dōjinshi e paródia, e BL é o guarda-chuva comercial moderno.

A gramática do gênero: seme e uke

O BL japonês desenvolveu convenções narrativas próprias, sendo a mais famosa a dupla de papéis seme/uke (“quem corteja / quem é cortejado”), anotada com um “×” — e a ordem dos nomes ao redor desse × é gramática sagrada no fandom. Se essas convenções libertam ou limitam o gênero é debate de décadas dentro do próprio Japão, e o BL moderno cada vez mais brinca com elas ou as subverte.

Por que mulheres? A pergunta com 50 anos de respostas

O BL foi criado esmagadoramente por mulheres, para mulheres, e a pesquisa acadêmica discute há décadas o porquê: distância segura dos roteiros românticos patriarcais, liberdade de escrever o desejo sem um corpo feminino exposto a julgamento, pura experimentação narrativa. Existe um corpo acadêmico japonês sério sobre isso (BL studies é um campo de verdade). Ao mesmo tempo, uma história honesta precisa registrar o longo debate entre BL e representação LGBTQ real — incluindo o “debate yaoi” (yaoi ronsō) dos anos 90 no Japão, quando críticos gays questionaram os retratos fantasiosos do gênero. O BL japonês contemporâneo e suas leitoras levaram essas críticas a sério, e hoje a fronteira entre BL e literatura queer é bem mais fluida do que em 1995.

Do Japão para o mundo — e para o Brasil

O BL japonês se espalhou pela Ásia entre os anos 90 e 2000, inspirando diretamente quem depois construiria a indústria de dramas BL da Tailândia — hoje um negócio de exportação com apoio estatal: as autoridades tailandesas promovem conteúdo BL/GL no exterior e só o estúdio GMMTV planeja 21 títulos BL para 2026. No mundo hispânico, o licenciamento de Junjō Romantica pela Ivrea abriu a porta da publicação comercial de BL. E no Brasil, o BL já é presença fixa de um mercado de mangás em nível recorde — com editoras como NewPOP, JBC e Panini publicando o gênero regularmente, e quase 700 volumes de mangá lançados no país em 2025. Nas Filipinas, há relatos de que mangás BL vendem em nível de bestseller nas grandes livrarias desde cerca de 2015 (fonte de site de fã; não verificado).

Por que a história importa

Conhecer essa linhagem muda como você lê tudo: os dramas tailandeses deixam de ser uma moda surgida do nada e viram o galho mais novo de uma árvore de 50 anos cujas raízes continuam em Tóquio — nas revistas shōjo, nos corredores de dōjinshi e nas canetas de mulheres que queriam histórias que ninguém mais escreveria para elas.


Fontes: O esboço histórico (Grupo do ano 24, June, etimologia de yaoi, yaoi ronsō) corresponde à historiografia padrão e amplamente documentada do BL — ver, p. ex., Wikipedia: Fandom de yaoi (ES) e a literatura acadêmica de BL studies; datas e detalhes específicos devem ser conferidos em fontes primárias antes de citação precisa. · Promoção estatal tailandesa de exportação BL/GL (Thailand Hyperlinks) · Line-up GMMTV 2026 (Animate Times) · Mercado brasileiro de mangás 2025 (BBM) · Retrospectiva BL Brasil (Blyme Yaoi) · Dado das Filipinas (BL Bliss — não verificado)

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